O Tumor de Pancoast (tumores do sulco superior) e a Síndrome de Pancoast constituem uma entidade tumoral de localização apical no pulmão acompanhada por um conjunto de sintomas dolorosos e neurológicos específicos.

  • Localização: Esses tumores situam-se no sulco pleuropulmonar superior (sulco superior), adjacentes aos vasos subclávios, e receberam esse nome em razão dos relatos históricos do médico Henry Pancoast.

 

  • Causas: O câncer de pulmão é a causa mais comum de longe, associando-se com maior frequência ao adenocarcinoma, embora possa derivar de qualquer tipo histológico. Ocasionalmente, outros tumores raros ou doenças infecciosas também podem originar a lesão.
NETTER: KAMINSKY, David. Coleção Netter de Ilustrações Médicas – Sistema Respiratório – Volume 3 . 2. ed. Rio de Janeiro: GEN Guanabara Koogan, 2014.

O que é a Síndrome de Pancoast?

Sinais e sintomas

A Síndrome de Pancoast é o complexo de sinais e sintomas resultantes do crescimento desse tumor em direção às estruturas anatômicas vizinhas:

  • Dor no ombro e braço: A dor no ombro é o sintoma de apresentação mais comum, provocado pela invasão tumoral na parede torácica, na primeira e segunda costelas, no corpo vertebral e possivelmente no plexo braquial. A dor pode irradiar para a cabeça e pescoço, ou para a axila e braço no trajeto do nervo ulnar. Frequentemente, essa dor é diagnosticada de forma incorreta durante meses como bursite ou osteoartrite do ombro.

 

  • Comprometimento Nervoso (C8, T1 e T2):
    • O envolvimento das raízes nervosas de C8 e T1 pode causar fraqueza e atrofia dos músculos intrínsecos da mão, além de dor ou parestesias (formigamento) no quarto e quinto dedos e na face medial do braço e antebraço.
    • O comprometimento da raiz de T2 pode gerar dor ou sensibilidade alterada na axila e na porção medial do braço como um sintoma precoce.

 

  • Síndrome de Horner: Consiste na presença ipsilateral (no mesmo lado da lesão) de ptose palpebral (pálpebra caída), miose (pupila contraída), enoftalmia (olho afundado) e anidrose (ausência de suor) em metade do rosto e da cabeça. Ocorre devido ao comprometimento da cadeia simpática paravertebral e do gânglio cérvico-torácico (estrelado).

 

  • Progressão da doença: À medida que o tumor progride, ele pode invadir os forames intervertebrais e causar compressão da medula espinhal com paraplegia. A invasão progressiva do mediastino pode resultar em paralisia dos nervos frênico ou laríngeo.

Diagnóstico e Estadiamento

  • Radiografia de tórax: O achado clássico é uma massa apical ou um “capuz apical” unilateral.

 

  • Tomografia computadorizada (TC): É indicada quando a alteração não for evidente no raio-X, permitindo avaliar detalhadamente a extensão tumoral local.

 

  • Ressonância magnética (RM): É o exame mais indicado para demonstrar o envolvimento do plexo braquial e a extensão para o canal espinhal, enquanto a angiorressonância avalia o comprometimento dos vasos subclávios.

 

  • Obtenção do diagnóstico: A aspiração/punção por agulha transtorácica é o método mais comum para diagnosticar esses tumores apicais, embora a broncoscopia possa ser diagnóstica em tumores maiores.

 

  • Estadiamento: Inclui exames como o PET scan e a RM cerebral, em razão da propensão para metástases no cérebro.
RX - Massa de partes moles substitui o ápice pulmonar direito, estendendo-se superiormente acima da clavícula.
TC C+ fase arterial - Grande massa necrótica com bordas irregulares, estendendo-se do ápice ao hilo destruição da primeira costela direita.

Tratamento e Prognóstico

  • Casos sem metástases em linfonodos mediastinais: Em pacientes com câncer de pulmão de não pequenas células sem comprometimento de linfonodos mediastinais, o tratamento inicial consiste em quimioterapia e radioterapia concorrentes, seguidas de ressecção cirúrgica 3 a 5 semanas após a indução. A sobrevida em 5 anos com essa abordagem trimodal é de aproximadamente 40%.

 

  • Casos com envolvimento de linfonodos mediastinais: São tratados unicamente com quimiorradioterapia definitiva, apresentando taxas de sobrevida a longo prazo inferiores.

 

  • Doença metastática (Estágio IV): O tratamento baseia-se em radioterapia paliativa e quimioterapia sistêmica.

O sulco superior do pulmão, é o mesmo que sulco da artéria subclávia?

Não são a mesma coisa. Embora estejam intimamente relacionados na região do ápice torácico, tratam-se de conceitos anatômicos e cirúrgicos distintos:

  • Sulco da artéria subclávia: É uma estrutura anatômica real e delimitada descrita na terminologia anatômica. Trata-se da impressão óssea na face superior da 1ª costela (imediatamente posterior ao tubérculo do músculo escaleno anterior) e da impressão vascular na face mediastinal do ápice de cada pulmão, moldada pela passagem da artéria subclávia.

 

  • Sulco superior (da expressão “tumor do sulco superior”): É uma designação topográfico-clínica, não um sulco anatômico intrínseco do parênquima pulmonar. O termo foi criado pelo radiologista Henry Pancoast em 1932 (superior pulmonary sulcus tumor) para descrever a depressão do desfiladeiro torácico superior — a “calha” formada pela cúpula pleural, os corpos vertebrais de T1–T3, a 1ª e 2ª costelas e os vasos subclávios.

 

O sulco da artéria subclávia faz parte do assoalho e das estruturas que cruzam o espaço do sulco superior, razão pela qual lesões expansivas nessa topografia costumam envolver ou comprimir os vasos subclávios diretamente.